domingo, 12 de julho de 2009

CHAFURDAR NA LAMA...


Sinto-me impossibilitada de alcançar a desejada harmonia entre o meu ser e o meu estar no mundo, como se o meu eu e o mundo fossem incompatíveis... Vontade de fugir de mim mesma, abandonar essa vida interior onde detecto fraqueza। Por vezes, nem sei quem sou, engano aos outros e a mim freqüentemente। Uso máscara o tempo todo, para que os outros me suportem। Fico chocada ao constatar o quanto atuo e me perco em meio a tantas personagens. Qual delas serei realmente? A fortaleza, a alienada, a sensível, a mal amada... a cada momento uma delas entra em cena e interpreta o seu papel, até aí, tudo bem, acho que isso ocorre com todos, o problema é quando tenho que olhar para dentro de mim e não me reconheço, e invento mais uma e mais uma. São tantas mulheres distintas... crio e recrio histórias, conflitos, busco desesperadamente por mim em cada uma delas e me perco... Chafurdar na lama... Há uma constatação: isso não me agrada. O que posso fazer para mudar? Aí surge a dor, quando se percebe que há um esgotamento de possibilidades. Não tenho força. Meu corpo não está disposto. É como se eu ficasse torpe, sem reação e vontade. Somente recolhendo o óbvio, o reduzido, o quase nada.Chafurdar na lama... Sinto uma necessidade de mudar, mas fico assim... entorpecida no tédio. Ele me consome e já não tenho muito a compartilhar. Irritabilidade com o medíocre, com tudo que me esvazia...Chafurdar na lama... mas ao contrário do que seria de praxe, tenho a nítida impressão que após fazer isso, me sentiria mais leve e finalmente livre desta dor que corrói minha alma. Às vezes nem é mais dor e sim um estágio letárgico de aceitação das coisas que não posso mudar, mas Schopenhauer dizia que o sofrimento está para quem reflete. Quanto mais inferior o ser humano em suas construções reflexivas, mais próximo da satisfação ele encontra-se. Alienação total. Seria isso a felicidade? Chafurdar na lama... e lá deixar tudo que há de pequeno, mesquinho e medíocre em mim. Deixar que o barro encarregue-se de remover o que não quero mais e por um momento sentir-me desligada, por assim dizer, desconectada do mundo objetivo, do seu contexto social. Chafurdar na lama... com a esperança de que após esse ato tresloucado eu possa reconhecer-me, e enfim, libertar-me da dor.



Naira Rodrigues

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